O perigo da música reflexiva e a relação austro-paraense

Um baterista se apresentando em um show ao vivo, com uma imagem projetada em grande tela atrás dele em tons de vermelho e uma multidão ao fundo.
Amanhecendo no Vale do Anhangabaú, SP, com &ME & Adam Port.

Em Belém, a gente vê a tristeza batendo quando o dj coloca uma música como “Pais e Filhos” ou “Tempo Perdido” na parte final de uma festa. Nesse momento você imediatamente entende o recado, a festa vai acabar em no máximo 2 ou 3 músicas dependendo do quanto o dj é fã do Legião Urbana (ou do quanto ele tá reflexivo naquele dia). Legião é fim de festa.

Pula pra 2020+, São Paulo, 6 horas da manhã, melhor momento da festa, amanhecer, amigos felizes, engraçados ou “pouco” alcoolizados. O dj já não tem pena do público, o volume tá no máximo, o grave marcando presença, e aí do nada as batidas somem e você percebe um synth vindo lá do fundo. Sim, é a hora de Innerbloom. Sim, aquele sentimento de “só mais duas músicas e vamo embora” chega também.

E foi assim que eu criei preconceito com o Legião e com o Rufus. Era alguém pegar o violão e tocar três acordes que antes do quarto eu já tinha levantado da roda e inventado uma desculpa pra não ouvir “Tire suas mãos de mim, eu não pertenço a você”. No caso do Rufus, foi até pior. Talvez eu não conseguisse reconhecer nenhuma outra música do trio além da já citada.

Mais recentemente, eu tava acompanhando o The Town pelo TikTok e eu tive um déjà vu. Percebi que tinha esse mesmo sentimento com uma outra artista, Joelma. Era mais fácil lembrar do porquê desse sentimento. Foram anos que toda vez que eu conhecia alguém e falava que era Paraense, não importando o lugar no Brasil, eu recebia de volta um “Isso é Calypsuuu!” como uma espécie de “é um prazer te conhecer“. Naturalmente, a simpatia inicial que eu tinha para com a banda Calypso não suportou essas repetidas situações constrangedoras por conta do hype nacional.

Meus amigos, chegou a hora de fazer as pazes com o passado, ressignificar e explicar um pouco mais os motivos que me fizeram evitar Joelma e Rufus. Mais do que isso, os eventos que me fizeram mudar completamente o que eu pensava sobre a arte em questão.

As Festas em Belém e o Gatilho da Reflexão

“Vou sair à noite com os amigos, eu vou me jogar” – Voando pro Pará – Joelma

É sério. Em Belém, se jogar é se jogar de verdade. Muitas vezes conhecido como endoidar.

Quer entender o quanto uma festa em Belém é animada? Vá no TikTok e procure Joelma no The Town. Os vídeos falam por si. Num grande festival, onde trouxeram vários astros internacionais, uma das paraenses mais consideradas de todos os tempos brilhou com todo direito.

Nesses vídeos do show dela dá pra ver um pouquinho do caos de Belém. Esse caos, essa “liberdade”, faz com que as pessoas se expressem, se joguem de cabeça e não importa o ritmo, é curtição sempre. Esse vídeo do Instagram é um bom exemplo da árdua missão do dj em expulsar as pessoas de uma festa em Belém.

É aí que entra a genialidade do gatilho da reflexão. Seja em Belém ou SP, no momento em que o dj usa esse gatilho e solta a braba, o público, que está aproveitando ao máximo as melhores horas da noite, tem uma ideia injetada na sua mente como no filme A Origem. A música reflexiva traz o sentimento de fim de festa, que por sua acalma e traz a paz para os próximos passos das pessoas em extase.

Leia os comentários do post do Instagram se quiser conferir essa e outras alternativas de como “expulsar” educadamente as pessoas da festa. E o dj ainda deve cuidar pra que a dose não seja muito alta, afinal ele não quer ser mal falado por conta de uma ou duas músicas no final do set né?!

Por exemplo, uma alternativa seria tocar uma música tipo “Homem-aranha” do Jorge Vercillo (chata pra caralho). Só que você tem que entender que nesse caso as pessoas sairiam de lá e imediatamente iriam reclamar nas redes sociais. No caso de música reflexiva do Legião ou do Rufus, as pessoas podem sair até como alguém melhor se prestar bem atenção na letra.


Só tem um problema, eu não sei como tanta gente gosta de refletir no final da numa festa. O que eu sei é que nem eu nem a minha amiga Tais gostamos. Vou explicar um pouco mais o porquê disso.

Festa é lugar de reflexão?

“If you want me, if you need me, I’m yours” – Innerbloom – RUFUS DU SOL

Se esse trecho não for extremamente profundo e reflexivo, eu não sei o que é.

Menino endoidando em uma festa não reflexiva.

Você tá numa festa (não reflexiva), a música tá dançante, a música tá mexendo com você. Mas agora é a hora dar o sinal para o público que a festa está acabando, aí vem o dj e manda uma música triste:

“El tren de la manana llega ya sin el” – La soledad – Laura Pausini

As pessoas se abraçam, choram, se emocionam, nessa brincadeira sobra até espaço para um affair. Você, como dj, falha, as pessoas acabam ganhando mais energia pra continuar a noite.

Aí você pensa, e se eu colocar um pouco de “raiva”? Não é possível que, se eu sair de um Quero Ser Feliz Também do Natiruts pra uma música do “System”, o pessoal não comece a tomar um rumo.

Fail.

A galera começa a gritar, tocar guitarras imaginárias, se bater, etc., e isso, como no caso da música triste, acaba criando mais energia no ambiente.

É nessa hora que a gente percebe o dj experiente, é a hora da reflexão. Daí o dj solta uma música com algum trecho como os debaixo:

“Que país é esse? Que país é esse?”

“Caminhando e cantando. E seguindo a canção. Somos todos iguais. Braços dados ou não.”

“Estátuas e cofres e paredes pintadas”

Você não sente nem vê, mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo. Que uma nova mudança em breve vai acontecer.”

Meus amigos, se a nossa condição psicológica permitir e se, como eu, você também tiver um gatilho pra músicas reflexivas. É nesse momento que alguns pensamentos virão e aí você começa a se questionar:

  • O que o cantor quis passar com esse trecho?
  • Será que essa música ainda continua atual?
  • Isso se aplica ao meu momento de vida?
  • Que mudança é essa que em breve pode acontecer?
  • Rapa, não tinha pensado, mas pode ser que o país não esteja tão bem, né?
  • Todo mundo está cantando, será que essa galera toda tá revoltada com o país?
  • Eu deveria estar feliz? Essa música tá estranha.
  • Meu amigo tá cantando muito essa música, será que ele tá bem?

Inúmeros pensamentos que vão te levar pra longe da vibe boa.

E o dj feliz percebendo que sua missão foi bem-sucedida. A vibe está quebrada, podem começar a acender as luzes. O preço do Uber já deve ter subido. É ir pra casa, melhor coisa.

E quando o dj solta uma reflexiva no meio da festa?

Tudo tem sua hora e seu lugar

Na maioria da festa eu não quero pensar sobre as possibilidades da vida, sobre teorias sociais complexas, sobre o futuro do meu país, se eu sou parecido com meus irmãos ou não, etc. Nessa hora meu negócio é dançar, aproveitar o drop, put my hands up, seguir comandos simples e efetivos para minha pura diversão.

Jogar uma música reflexiva no meio da festa, como o Afrohouse de protesto que eu fui obrigado a presenciar, é complicado. Tem que ter uma habilidade muito, muito alta. E se for em português, mais ainda. Outras línguas podemos nunca tentar nos esforçar pra aprender a letra, mas em pt-br é difícil.

Podemos até avaliar em outros tipos de festa, por exemplo. No Reggae, beleza. Na festa de Rock dos anos 80, inevitável. Numa festa à fantasia com o tema Tropicalia, aceitável. Mas continua sendo difícil no eletrônico mesmo no final da festa.

Isso tudo pra dizer que sim, Innerbloom foi uma das razões do meu preconceito com o Rufus.

Não pela música em si, ela é boa e tem pelo menos mais duas versões que eu curto mais que a original. O ponto é muito mais pela forma que essa música tem sido usada nas festas, o que sempre me faz lembrar o uso das músicas do Legião lá em Belém.

A exceção à regra

Negócio caótico festas jovens cariocas.

Festas Cariocas Jovens, estilo Arca de Noé ou Esbórnia têm a licença poética para tocar músicas reflexivas.

Essas festas não respeitam o mínimo da etiqueta musical focando puramente no entretenimento e na balbúrdia. As músicas passam tão rápido pela festa que não dá tempo de pensar, quando você percebe, você já está dançando até o chão e não entendeu nada. Como meu amigo, Rodrigote sempre me lembra como o dj das festas cariocas:

  1. O dj corta o funk do nada
  2. O dj coloca um rock reflexivo de letra fácil: “Que país é esse? Que país é esse?”
  3. A galera reage muito rápido acompanhando e cantando a música
  4. O amigo do dj que tá com microfone não deixa nem o segundo trecho do rock tocar e já puxa o coro: “chão, chão, chão, chão!”.
  5. Qualquer mini-pensamento reflexivo que por ventura tentou aparecer some e a galera só segue as ordens do MC

Até hoje, são os únicos capazes de usar músicas reflexivas mantendo a vibe. Pura habilidade.

O Hype

Essa é a melhor forma que o ser humano conseguiu explicar o que é Hype até hoje.

Então tudo isso por conta de Innerbloom? É o certo criar preconceitos a partir de apenas uma música?

A resposta é não.

Definitivamente o hype é outro importante fator pra mim. Não é uma coisa que eu curto, não sei por que e precisaria refletir sobre.

Vamos pegar o caso da banda Calypso, por exemplo. O hype nacional foi sem dúvidas a causa raiz do meu preconceito tardio. Pois no fim, vai ser muito difícil eu curtir algo hypado. Só se eu comecei a gostar da banda antes de ela estar no hype.

Então, meus consagrados e consagradas, para não ficarmos no campo teórico-abstrato, justifico os fatores que me fazem considerar que uma banda tá hypada.

Uma música que toca em todo lugar

Exemplo: Ana Julia – Los Hermanos

A música começa a tocar em festas do mesmo gênero musical, mas muito rapidamente se espalha, passando pelo estágio de tocar em casamentos e chegando ao triste fim de aparecer até em sertanejos.

Uma música longa que as pessoas costumam achar que é uma boa ideia tocar inteira

Exemplo: Faroeste Caboclo – Legião Urbana

Imagine que isso se torna um problema muito maior se: 1. Essa música for tocável no violão; 2. Faz o jovem se sentir inteligente se mostrar para os outros que sabe a letra inteira.

Na maioria das vezes, é bem desagradável ser forçado a escutar músicas acima de 5 minutos. E se for reflexiva a música, aí lascou. Isso não se aplica se você está ouvindo Beethoven, ok?

A banda tem apelido

Exemplos: Rufus, Legião, Los, Paralamas

Banda não tem que ter apelido, exemplo de bandas boas que mantêm a tradição. Nação Zumbi, Tale of Us, Tame Impala, Móveis Colônias de Acaju, Backstreet Boys, Destiny Childs, etc.

Dito isso, alguém já viu alguém falando: “eu vou no show dos ‘Backs’!” Não né?! É isso, meus amigos, nem preciso explicar.

Por conta desses fatores, eu considero culposo o meu preconceito sobre o Rufus. Apesar de eles virem do país mais descolado do mundo, lugar que meu amigo Varanda se encontrou depois de anos de rodeio de Americana, infelizmente o Rufus se enquadra nesses 3 principais fatores. E, por anos, estes fatores foram bem mais fortes do que a minha capacidade de abrir a playlist This is Rufus e ouvir do nada, sem um sentimento estranho no coração.

The Tipping Point

“Music is better / when we’re together” – Music is better – Rufus

Foi nessa música que todo meu preconceito caiu por terra.

Grupo de amigos posando em um festival com um palco iluminado ao fundo, enquanto se divertem com copos em mãos.
Amigos no Lolla/2024, pós Rufus.

Como diria, Carl Gustav Jung, o que é pra ser seu, vai te encontrar. As coisas começaram a mudar quando o meu amigo, Felipe Baiano, que recentemente nos deixou (obrigado por tudo, meu amigo), me mandou um áudio com o MC Poze do Rodo cantando a música Voando pro Pará. Vou te dizer que me surpreendeu muito o quanto ele estava se divertindo com isso. Ali foi o primeiro momento em que eu passei a olhar a Joelma mais como uma cantora pop do que de brega calypso. Passei a entender mais o impacto dela, passei a admirar mais essa artista incrível.

Já no caso do Rufus, foi um pouco mais demorado. Apesar da Amandinha ter palestrado sobre o Rufus algumas vezes, foi só quando uma combinação de fatores deu certo, resultando numa ida inesperada do Lolla para ver basicamente o Rufus como banda. Um desses fatores foi uma promessa do meu amigo Safin: “Vai ser a melhor festa do ano”.

O show dos caras foi incrível! Do lado musical, no visual, na dinâmica completa. Passei ótimos momentos com meus amigos, me surpreendendo música a música. Até a versão de Innerbloom foi incrível. Resolvi naquele momento abandonar o estilo de se vestir alemão-desleixado do Keinemusik e partir para o estilo australiano moderno-futurista do Rufus. Foi impactante.

Como é bom descobrir e admirar artistas novos

“Lately, I’ve been fallin’ deeper for you / It’s like I’m learnin’ how to love again” – Lately – Rufus

É isso.

Voltando pro The Town, eu fiquei extremamente feliz por mais uma conquista/show de Joelma. Do começo lá no interior do Pará, passando como principal responsável pela popularização de um estilo musical popular, até onde ela chegou (e não para de avançar) é algo surreal pra mim. E não é tão maluco dizer que ela passa por diversos ritmos dentro do mesmo show, na abertura do The Town a guitarra de Rock não me deixa mentir.

Já do lado do Rufus, eu tive a oportunidade de ver um long set deles no Burning Man desse ano. Que incrível! De verdade, eu não imaginava que as coisas melhorassem ainda mais, mas o que eu vi no deserto foi inesquecível. Eu dancei, fui feliz e vi o quanto esses caras mexeram com muita, muita gente. Sensacional!

….

E aí? O que mudou?

Então pessoal, eu continuo não curtindo Innerbloom nesse uso de fim de festa. Também, eu continuo achando que música reflexiva tem um uso muito limitado em festa de eletrônico. O hype continua sendo uma red flag pra mim. Só que algumas coisas mudaram e como é bom poder admirar a Joelma e o Rufus du Sol. E como nunca fui à Austrália, essa foi a única relação austro-paraense que eu consegui pensar até hoje.

PS.: Essa é uma versão draft do artigo.

Um comentário em “O perigo da música reflexiva e a relação austro-paraense

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