Prestes a decolar de Curitiba, ainda muito feliz/cansado do fim de semana musical-dançante que foi o do Warung Day, olho no Instagram e vi a recomendação de uma banda Acreana-Rondoniense, corri e baixei o último álbum deles pra ouvir durante o voo. Álbum maravilhoso. Mais um pra playlist descoberta de avião.
Assim que o álbum foi passando, um sentimento nostálgico foi surgindo. Strokes, Suzana Flag, Rock Paraense, até chegar aos primeiros shows de rock que vi lá no Pará. Fiquei me questionando por que estava misturando as sensações do Festival do Sul com o Rock do Norte, e vi que tinham algo muito em comum, ambos compartilham a mesma base, são parte importante do porquê eu amo música.
Neste post, eu vou explorar essa conexão com a música, o momento inicial em que eu percebi e pulei pra dentro do som, e o que há de comum entre o Indie Rock do norte e um festival de música eletrônica do sul.
O indie não morreu!
Luiz Leão (esse amigo sempre me avisou isso, respeito total!)
Fã do Nirvana
E a adolescência em Seattle teve sua versão em Belém.
Fã do Nirvana – Molho Negro.
Eu cresci no meio da música, meu pai era um dj, ou ainda é, se a gente considerar que basta não esquecer pra ser. A música sustentou nossa casa por um bom tempo. E eu aproveitei muito disso indo no estúdio “ajudar”. Cresci ouvindo todo tipo de música, tive uma oportunidade boa de entender as diferentes nuances dos estilos antes de formar meu gosto. Tenho lembranças de tentar mixar the Rhythm of the Night, Scatman, L’amour Toujours, entre outras lindezas. Mas não foi nesse momento que eu comecei a me aprofundar na música, foi quando eu fui pra shows, shows de rock alternativo em Castanhal, a cidade modelo.
Eu não era fã de Nirvana, e como na música do Molho Negro, meus amigos eram quase todos fãs do Nirvana. Era cool usar blusa de flanela, mas não combinava comigo. Eu não era triste, não ficava feliz com esse tipo de música. Hoje, adoro Foo Fighters. Então, era complicado me identificar com um ritmo, com um estilo de música. Minha relação com a música era quase técnica. Conseguia gostar e admirar músicas bem feitas, mas faltava uma conexão mais forte.
Era um pouco complicado eu me conectar com a música na minha cidade, não porque não tinha opção, mas porque ela não refletia o que eu passava ou de que eu gostava naquele momento. Eletrônica tinha a Beer House mas eu não sabia o que um DJ fazia de verdade. E também, o estilo não chegava a ser muito popular na cidade. Muitas vezes eles soltavam o “CD de grito”, como meu amigo Chico comentava. Cê passava no muro e ouvia o tradicional “arrea! arrea! arrea!”, aí pagava o ingresso com o dinheiro limitadíssimo e via umas 10 pessoas no dance floor. Frustrante. Com certeza isso adiou minha conexão com o eletrônico. Não estou julgando a Beer House. Eu agradeço muito por ter esse lugar na minha adolescência. Fui feliz lá.
Tinha o forró, mas eu era muito tímido para aprender a dançar no nível esperado para um “nativo” de Castanhal. Só fui aprender a dançar Calcinha Preta em Belém. Tarde demais. Além disso, as letras não conectavam comigo. Embora tenha que admitir que as versões de Scorpions e de U2 marcaram época.
Finalmente, tinha o Brega Paraense. Eu peguei a explosão desse estilo. O álbum Ator Principal do Roberto Villar, com produção do Chimbinha, é revolucionário. Apesar das belas músicas e solos de guitarras em Caminhoneiro e Te encontro em Marabá, elas não ressoram em mim. Não consigo me colocar no lugar do enredo, não tenho nem prazer em dirigir, muito menos sonhava em virar caminhoneiro, naquele momento não tinha muita ideia de como era Marabá.
There She Goes
Até um dia, que eu dei a sorte de meus amigos Gil, Gisele e Raul (e cia.) me chamarem pra um show de rock numa famosa churrascaria da cidade. Mudou tudo, ouvi Oasis, Cranberries, Sixpence None the Richer, etc. Achei o que me conectava com a música! Nessa época Maurinho, meu irmão, já tocava teclado e violão bem, eu brincava com teclado e resolvi aprender com ele como tocar violão. Era isso que faltava.
Eu ainda não sabia, mas ouvir a música que você gosta profundamente, num lugar onde todo mundo tá também pela música, é algo transformador. Ver gente cantando, dançando, até imaginando ser um Gallagher é algo inspirador. O melhor, eram os meus amigos dando o show.
Daí, foi só ir pros lugares certos (já em Belém), como o Se Rasgum, The Pub, Cosa Nostra e Black Dog, que você já estava curtindo o rock autoral paraense. E não só isso, tava no meio do público que se envolvia de verdade com o estilo, que era passional, que cantava e que “Se Dançum, Se Rasgum”. Não sai da minha cabeça um show do Johnny Rockstar no Café com Arte na Rui Barbosa (lá por 200X). Quando eles tocaram Alcalina, foi surreal o êxtase do público naquele lugar pequeno, realmente inesquecível!
O Festival do Sul

Adoro ouvir música, se minha vida profissional não fosse hoje 80% reuniões, eu bateria recordes e recordes de ouvir música no spotify/soundcloud. Acho também que ouvir música com um bom sistema de som e usando uma mídia física é uma experiência diferente, uma das que vale a pena reunir amigos, apreciar. Pegar um LP Abbey Road original pra ouvir é como se você passasse por outra versão dessa maravilha. Música é experiência!
E foi em busca de mais uma experiência que eu fui pela quarta vez no Warung Day, em Curitiba. Mais uma vez foi incrível. Pelo lugar? Pelo Line? Pelo Público? Acho que acaba sendo uma combinação de tudo. É aquele dia que fica na memória.
O Lugar
A Pedreira tinha que ser tombada como patrimônio histórico de Curitiba só pelo que já rolou lá. São 3 palcos grandes, sendo que um deles é a Ópera de Arame, o lugar mais incrível de festa que eu já tive a oportunidade de ir.
As coisas são muito bem pensadas. O som? Perfeito!
O Line
As apresentações foram impecáveis, tudo, é muito difícil que isso aconteça. Não sei, acho que esse lugar e esse público, impactam os DJs. Cheguei no Chambord, passei por Zac B2B Bhaskar, Desiree, Guy J e finalizei no Deep Dish. Se o cara não chamar isso de bênção, não sei mais o que ele pode chamar.
A gente tá vivendo mais um momento incrível da música eletrônica, há algumas semanas eu vi o gênio Laurent Garnier. E no último domingo teve mais uma missa (ou after da Time Warp) com o papa Sven Vath. Tempos bons!
Assim, pra você, meu amigo, que nunca ouviu os artistas aqui listados, o que eu posso lhe falar é que a experiência de vê-los ao vivo é muito diferente. Você ouvirá remixes nunca feitos, mashups que é difícil acreditar, tracks não lançadas, trechos longos sem build-ups, etc. A coisa é fina. O Spotify tem bem pouco do que um set proporciona, bem pouco mesmo. Outra experiência.
Que horas a gente descansa?
Tais – Durante um período de 30 min sem um build-up no set do Garnier.
O Público
É aqui que o Warung Day brilha, no público. Gente apaixonada por eletrônico.
Pra muita gente o público não faz tanta diferença, mas pra mim é parte essencial do show. Sabe aquele lugar de Jazz em que a galera fica conversando? Pois é, não interessa a banda que esteja lá, não vou. Muitas vezes o Jazz é improviso, talvez nunca mais vejamos aquela mesma música. O silêncio, a escuta ativa, é parte da cultura.
No eletrônico, na maioria das vezes eu vou pra dançar. E a vibe importa muito. A Ópera de Arame estava linda! Isso tudo graças à cultura do público, que difere dependendo do estilo que tá rolando no palco, mas que em geral entende muito bem o que tá apreciando.
Nunca vou esquecer nossa galera no ano passado (2025) numa track do Black Coffee. Foi uma vibe pra cima puxada pelo meu amigo @dudualifantis. Nesse ano, nós não parávamos de nos olhar incrédulos com o set do Deep Dish, sensacional! A Ópera sempre vai estar na minha mente com várias das experiências inesquecíveis!
La vida no es la que uno vivió sino la que uno recuerda y como la recuerda para contarla
― Gabriel García Márquez
Fique Online
“Eu viajei, andei por aí
Na solidão quase me perdi
Mas na calmaria de um dia comum
Me encontrei no seu olhar
Agora eu entendo
Amor eu me rendo”
Me Rendo – Dkukas
Entrando no avião, aquela última rolagem no insta e pronto. Recomendação de uma banda nortista de rock, Fique Online – Dkukas. Download e Play!
Muitas conexões, exemplo: bateria do Strokes (Pois é, Fim do Dia), do vocal do Suzana Flag (Me rendo), críticas parecidas com Molho Negro, levadas parecidas com Ataque Fantasma, etc. Muito bom! Muito bom o Rock Nortista! Eu sei que eu tenho um viés forte aqui, mas o post é meu, né, é isso que importa.
Uma outra coisa foi imediata pra mim, a capa do álbum Fique Online me lembrou demais a capa do Álbum Fanzine do Suzana Flag. Esse álbum aí marcou muito muito uma ex num período muito legal do Rock Paraense.
O álbum é legal no geral, mas curti bastante 3 tracks: Poesia, show de vocal! Portamento lindo na segunda parte da música; Apostas e; Me rendo. Sei que agora vocês vão querer mais rock nortista, então aqui vai minha playlist.

Ouvir álbuns inteiros no avião é uma experiência. Foram várias grandes descobertas nos ares, por exemplo: Resta in Ascolto – Laura Pausini; Strut – Lenny Kravitz; ten days – Fred again..; Caiiro – Caiiro; Happier Than Ever – Billie Eilish; etc. Só façam essa experiência!
É… Música é experiência, e, falando em experiência, a do Warung Day não acaba quando termina. Como eu disse pro meu amigo Mohamad, esse dia é desenhado pra você fazer um “menu degustação” de bons afters.
Só quem se arrisca merece viver o extraordinário
Quem já foi pra after sabe que muitas vezes você cai em lugares onde você se pergunta por que você tomou essa decisão bastante questionável. Só que tem um ponto, no fim do arco-íris dos afters, tem um pote de ouro. Só quem insiste aprende e está pronto para receber essa recompensa.

Nesse ano não foi diferente, saímos por volta da meia-noite e fomos pra mais música boa. Diferente de um grande festival, os afters são pequenos, ali o público importa mais ainda. Mas como expliquei em cima, a diferença é grande numa cidade onde as pessoas são fluentes em eletrônico. Incontável o número de amigos que eu fiz nos afters do WD, incontável o número de gente da maior qualidade que eu esbarrei por lá.
Eu não paguei o valor que deveria pra assistir e conhecer tanta gente boa esse ano! Estou devendo a meus amigos Double (Twelve Afters) e Júlia. Senhorita Sheila Mello, você saiu no horário das crianças, hein?!? Pegou falta!
O que eu espero? Eu espero ter mais e mais experiências como essas. Como as que eu tive na Ópera de Arame, no Café com Arte, no Tweve Afters, em Curitiba, em Belém. Com muita gente que se joga, “Se Daçum, Se Rasgum” na música!
PS.: O pessoal me avisou, mas eu fui teimoso em dançar descalço. Resultado: resfriado. Ouça seus amigos de Curitiba, eles conhecem a temperatura do chão.
PS.2: Eu já falei de eletrônico e música paraense aqui também. Prometo que vou parar. 🙂





