Eu não posso reclamar dos anos recentes que vivi. Acredito que tenha crescido muito como profissional, melhorado minha consciência de saúde mental e corporal (é assim que se fala?) e, principalmente, ter mudado pra uma pessoa da qual eu tenho mais orgulho.
Mas também, estes mesmos anos foram duros. Na maioria das vezes o crescimento veio a partir de algum evento de dor, surpresa não agradável ou, no mínimo, uma mudança que me colocou fora da zona de conforto.
2025 começa completamente diferente. Começa sem eu estar “atrasado” em “nada”, estar bem comigo mesmo, e também vem de um processo de preparação que eu não lembro ter feito antes na minha vida. E é o processo de como eu cheguei até aqui que eu vou compartilhar um pouco nesse post.
Mas eu já aproveito pra deixar um Feliz 2025 pra todos!
Os anos que me trouxeram até aqui
A minha volta pro Brasil no finalzinho de 2019 marcou um recomeço pessoal. O que eu (e ninguém) esperava era uma pandemia. Nos dois anos posteriores eu fui quase um nômande digital. Só que além disso, durante esse período aconteceram mais duas mudanças profissionais que adicionam uma dificuldade extra, pois foram ambientes corporativos muito diferentes (Nubank -> Amazon -> Bhub). No fim, eu acabei realizando o que eu havia projetado há 10 anos, co-fundar uma startup novamente.
Do lado pessoal, a minha evolução ficou muito atrelada a minha vida profissional, pelo menos até Junho de 2023. Não dá pra dizer que eu não aprendi. Foram, definitivamente, as empresas que eu mais trouxe aprendizados pra minha vida. Porém, essas mudanças profissionais deixaram marcas. Talvez eu não queira fazer muitos mais onboarding corporativos na minha vida. Me pergunto se um dia não poderia transformar isso num livro, mas agora ainda é algo sensível pra mim ;).
Tudo isso me fez mudar profundamente. Talvez eu não ficado confortável por mais de alguns poucos meses durante 3 anos e meio. Talvez tenha sido o momento que mais me empurrou pra mudança em toda minha vida. E claramente eu lembro de alguns momentos que foram importantes nessa evolução.
As lições pelo caminho
Pandemia
Definitivamente a pandemia me fez refletir sobre a brevidade da vida. Como disse o Bad Bunny na DtMF:
Debí tirar más fotos de cuando te tuve
Debí darte más beso’ y abrazo’ las vece’ que pude
Ey, ojalá que los mío’ nunca se muden
Y si hoy me emborracho, pues que me ayuden
Estoicismo (Meditações)
Durante o tempo de Berlim, eu entendi como eu me tratava quando li o Autocompaixão da Kristin Neff. Mas na pandemia foi muito doido foi perceber como minha mente fica falando comigo em outras situações, o livro “Um copo de cólera” me deu uma luz gigante nisso.
Durante esse período eu entendi muito como funciona o estoicismo, a respiração – curso de apnéia foi essencial, e a meditação. Não falo que eu sei ou que domino totalmente, mas com certeza isso tem me ajudado muito em vários momentos.
Hoje eu acho graça quando eu estou num modo – “Um copo de cólera” e também consigo claramente ligar os pensamentos, a respiração e a meditação.
As 5 linguagens do amor
Ouvindo um podcast relativamente aleatório onde o autor respondia uma pergunta sobre a vida dele por dia, vi a recomendação do livro 5 linguagens do amor. Avisado sobre o perfil do autor do livro e que isso trazia alguns vieses pra obra, fui pra leitura com alguns filtros que me ajudaram muito a absorver o core do livro.
E, de verdade, pelo menos umas 3 vezes parecia que jogaram uma luz absurda sobre algumas coisas que eu não conseguia entender em partes da minha vida. E todas elas relacionadas com amor, em dar, receber ou reconhecer esse sentimento.
Não acho que a vida é tão simples a ponto de ter apenas 5 linguagens do amor, mas é inegável que o livro é uma ótima simplificação. Foi natural olhar pra Toque e Tempo de Qualidade como algo que eu me identificava e que era natural pra mim. Atos de Serviço algo que eu não considerava como um ato de amor. Presentes algo que eu já sabia que era muito ruim (e talvez ainda seja). E que eu além de desconsiderar completamente Palavras de Afirmação como ato de amor, eu também era horrível nessa linguagem (talvez ok no trabalho).
Eu tenho orgulho da minha melhora em Palavras de Afirmação e Atos de Serviço. Também fico impressionado o quanto a melhoria nas Palavras de Afirmação tem me gerado tanta coisa boa de volta. Eu credito um percentual razoável da minha felicidade em ter consciência disso. Também isso me fez mudar nas redes sociais, além das lições do meu amigo Capitão Pedrinho.
Hoje eu faço questão de falar as coisas, de elogiar, de reconhecer, e de elaborar as minhas palavras com a energia que tenho no momento.
Eu não espero reconhecimento ou reciprocidade sobre isso, exatamente como se eu tivesse usando princípio de gifting do burning man.
Os princípios de liderança da Amazon
Cultura corporativa não é algo novo ou inconsciente pra mim. Por exemplo, alguns princípios corporativos eu já usava na minha vida pessoal desde tempos de QEdu: “Be Bold, Be Humble” e “Disagree and Commit”. O que eu não imaginava era que eu ia aprender tanto nos princípios da Amazon. E o tanto que isso iria impactar minha vida pessoal.
Eu só vou listar as coisas que eu uso no dia a dia: “Have a backbone, Disagree and Commit”; “One way door, two way door”; “Good intentions don’t work, mechanisms do”; “Are Right, a lot”; etc.
É uma loucura como minha negociação melhorou demais, o quanto eu não me afeto mais nas situações onde não posso controlar, o quanto a forma de pensar relacionada a esses princípios e o meu aprendizado na Amazon contribuíram pra que minha vida se tornasse tão light quanto a versão de Don’t Dreams It’s Over da Lauren Daigle.
Como extra, eu consegui melhorar algo que eu já era relativamente bom – Ficar calmo em situações extremamente caóticas.
O Reveillon de Alter
No fim de 2020, eu e alguns amigos fomos pra Alter do Chão, um paraíso no Pará. Os reveillons sempre foram momentos super especiais pra mim. Não tenho dúvidas de que o fim do ano é o momento onde quero estar perto da minha família e dos meus amigos, é um momento de altíssima gratidão e um recomeço.
Mas esse, especialmente, me mudou profundamente. Foram dias incríveis com amigos especiais (novos e antigos), conversas profundas com o pé na areia, tomando vinho branco e comendo bejus com pirarucu defumado na Ty. Foram tardes maravilhosas nos rios de água transparente do oeste do Pará, regados de música boa.
Só que um desses dias foi beeeem especial pra mim, a tarde que passamos na Casa de Saulo original. Ali acho que algo desbloqueou em mim (talvez instalei um drive na minha mente numa linguagem mais atual). Lá, definitivamente, eu me tornei mais a pessoa que sou. Quando eu falo me tornei envolve uma série de coisas, mas de forma simples, mais confiança de ser eu mesmo e de mostrar isso ao mundo.
Eu não sei explicar, eu só sei que foi assim.
Aftersun
Nesse meio tempo, eu passei a ir nos domingos à noite no CineSala, na Fradique Coutinho. Nessa época eu tava tentando ressignificar alguns domingos chuvosos tristes que foram precedidos de uma sábado (muito) feliz. Essa é uma das grandes diferenças de Belém pra SP que talvez eu ainda estranhe mesmo depois de 12 anos.
E funcionou. Não importava muito o filme, só a ida ao cinema já me deixava extremamente melhor e mais criativo (no fim do domingo ou na segunda de manhã). Me energiza.
Foi numa dessas noites que eu vi o filme Aftersun. Não acho que é um filme cheio de apelo emocional, ação ou picos de drama. É só uma história onde o roteiro é passado de forma muito sutil, é sobre amor paterno, é sobre como a gente não vê tudo e a gente pode deixar passar coisas importantes. Foi o segundo filme na faixa do 7 no IMDB (injustificadamente) que me impactou muito, o outro foi o Cashback.
Dormir e acordar
Na minha vida inteira eu só tive problemas com sono por duas vezes, em um período onde tava na Alemanha e em 2022. Foi nesse momento que achei uma profissional que me ensinou duas coisas, a importância da higiene do sono e, principalmente, que “você só acorda pra o mundo quando você pega no seu celular”.
Destas duas coisas, acho que a segunda me marcou muito mais. Acho que foi o primeiro passo pra eu me desconectar pesado do celular recorrentemente sem peso na consciência e sem nenhum motivo específico além de aproveitar mais o momento, fazer mais coisas reais e focar em mim e nas pessoas que eu estou perto. Não que eu não fizesse isso, mas que agora faço conscientemente.
O período da manhã que eu não toco no meu celular parece algo que eu não tenho nenhuma pressão da sociedade e, principalmente, minha mesmo.
Essencialismo/Organize your tomorrow today
Por fim, acho que esse período me fez pensar no que era essencial pra mim, pois eu não conseguia fazer todas minhas coisas pessoais e profissionais. Foi um período em que eu me coloquei uma pressão de conseguir muitos objetivos pessoais e profissionais.
Dois livros mudaram a forma como eu me organizo, e também me mostraram o caminho de dizer mais nãos, os que dão o nome dessa seção. Também parei de procurar rotinas padrões as quais eu não me identificava, montei algo que era mais próximo ao meu ritmo e objetivos de vida. O livro – Daily Rituals – How Artist Works – foi um mindblowing pra mim.
O Tipping Point
Aí lá em 2023 eu percebi uma mudança profunda em mim. Aconteceu durante um festival de música. Talvez tenha sido só o fim do processo, mas eu percebi naquele momento.
Embrace the music and yourself
Eu percebi pois num período muito curto de tempo, eu conheci muita gente incrível e fui muito feliz. Essa felicidade não foi momentânea, ela se arrastou por semanas, meses. Foi nesse momento que eu passei a tentar entender a causa raíz do que tava rolando. Minha conclusão foi que eu estava sem medo de ser mais eu, estava conseguindo traduzir quem eu queria ser pro mundo, e que isso parece que tava gerando frutos.
Percebi também que o ambiente estava influenciando fortemente em tudo que estava acontecendo, acelerava o processo. O ambiente era repleto de música, e das que eu mais gosto.
Vai que dá certo
Acho que isso gerou um grande ciclo positivo. Quanto mais intensificava o processo, eu trazia mais gente boa pra minha vida, mais me fazia feliz (ou passar semi-ileso por momentos difíceis), que me trazia mais pra arte e que repetia tudo de novo.
Dado que as coisas estavam caminhando pra um caminho muito positivo, eu resolvi intensificar o processo. Eu sabia que não ia rolar pra sempre, precisa de muita energia e abertura. Aí eu conscientemente eu expandi muito minha rede de amigos. Dobrei, tripliquei, quadrupliquei música na minha vida, principalmente os eventos que reuniram pessoas e música. Pulei de cabeça em outras artes e vi que não era só música. Por exemplo, as artes plásticas tiveram um papel central também. E mais gente legal veio junto como resultado final.
Intensificar isso também gerou momentos de frustração, também me levou pra lugares que eu não curti, também me colocou em situações de desconforto. Eu só encarei isso como parte do processo, com algo que não daria pra levar por muito tempo, mas que naquele tempo eu via como algo do processo. Era o “Trust the Process” do Sam Hinkie do Philadelphia 76ers nos anos consecutivos onde ele montou o time com o Embid, Ben Simmons, Markelle Fultz, Dario Saric, etc. Mas diferente dos 76ers, eu não queria ser campeão de nada, só fazer parte de um elenco bom já iria me fazer feliz e uma pessoa melhor. E como com os 76ers, o processo não seria indolor.
Mais mudanças
Mesmo com mais mudanças, com mais incertezas, as coisas só iam num caminho que eu tava aproveitando. As coisas só eram mais e mais positivas.
Mas aqui o que eu queria compartilhar é que eu ainda me surpreendo como mesmo depois de dias, semanas e meses complicados, quando isso passa, eu to muito melhor, eu to muito mais perto do que eu quero na minha vida. Não, nunca aconteceu antes e vai ser difícil eu me acostumar com isso. Eu sempre vou chamar de sorte.
O fator sorte
Ontem eu li esse artigo bem legal sobre a sorte. A autora começa falando que superstisiosos acreditam na sorte. Eu acredito na sorte pelo motivo inverso, por que eu acredito que o mundo é pouco determinístico e muito caótico. Por isso eu acho difícil coisas boas acontecerem de forma sequencial como é difícil um dado ter o mesmo resultado toda vez que se joga. Então eu não acho que o trabalho duro ou a determinação tem fator determinante na sorte.
Mas ela cita alguns fatores da sorte que eu acho que vale a pena compartilhar: 1) Estar aberto a oportunidades; 2) Confiar no seu sexto sentido (em tradução livre); 3) Ser otimista e resiliente; 4) “Pessoas sortudas sempre buscam pelo ganha-ganha”.
Como expliquei, o primeiro fator eu fui hard nesses últimos 18 meses. O segundo por incrível que pareça eu percebi que fiz bem, quando eu via uma situação positiva eu ia fundo, quando eu via alguma coisa negativa eu saia ou saio de fininho (me inspirei numa palestra do Fil – num slide que ele explicou o “Quer, que – Não quer, não que.”. O 3 acho que tenho sido mais otimista do que já fui na minha vida (eu não sou emocionado), fui ok na resiliência (muito acima da minha média). O último fator eu simplesmente não acredito, porque eu não acredito em pessoas “sortudas”. Acho que isso é contraditório à minha visão de mundo não determinística e aleatória.
Eu não consigo não chamar de sorte uma sequência como: sounds of quartzo, uma van pra um after, barcelona, keinemusik, um super after da d-edge, um monte gente, um monte de momentos felizes. Tudo isso em 6 meses.
2025 – O fim da expansão, o começo da consolidação
O fim de 2024 veio como um trem que tava me arrastando. Eu não cheguei a ser arrastado com a cara no chão, mas me puxava mais forte do que eu conseguia correr. Não à toa, o Natal e o Ano Novo foram dois piscares de olhos. Quando eu vi, eu já tava doente no dia 2 de janeiro e não tinha entendido como os últimos dez (bons) dias passaram tão rápido.
Quando eu voltei pra São Paulo, parecia que eu tinha acabado de passar por uma das tempestades que o Amir Klink descreveu no “Cem dias entre céu e mar”. O mar parecia calmo, o sol brilhante e tudo parecia no seu lugar. Só que tinha só um detalhe, eu tinha aprendido tanto depois de tudo, parecendo que a vida se tornara muito mais calma no fim.
Esse ano vai ser diferente, não vai ser um ano de expansão, não vai ser um ano acelerado, não vai ser um ano de “sair da zona de conforto”. Eu sei que essa última parte é um desafio pra mim, como o meu amigo Shure me relembrou na sua última mensagem. Ele não se mostrou surpreso com uma mensagem em que ele interpretou que mudanças estavam vindo pra minha vida novamente. Mas não, era só uma frase que eu redigi mal, ufa.
Vou diminuir as coisas, mas manter as pessoas e as experiências. Então, vou precisar conectar amigos, viver mais em comunidade, fazer mais projetos com grupos maiores. Talvez esse seja o meu desafio. Bem mais fácil, eu já tenho uma lista grande de tudo. Do que gosto, de quem gosto, do que quero, das experiências, das datas e tudo mais.
Talvez eu faça mais coisas simples, talvez eu seja mais introspectivo e focado em algumas coisas pequenas e pessoais. Uma coisa eu sei que não é nice-to-have, o ritmo. Ele tem que ser lento e isso é um must-have.
A mensagem pra quem chegou aqui é que tá tudo ótimo. Que eu tive muita sorte nesse caminho. E que eu não vou me cansar de ser grato por isso.
E como diria meu amigo Gigio, à todos que fizeram parte desse enredo, obrigado por existirem!
PS.1: Acho que eu nunca escrevi uma coisa pessoal que publiquei tão rápido. Mais uma coisa melhorando? 🙂
PS.2: Post livre de Inteligência artificial (pelo menos até onde eu tenho consciência).
PS.3: É um prazer usar o pretérito perfeito e provavelmente errei em alguns lugares. Então, como diriam meus amigos do ddd 041: “quem não gosta, morde as costa. Quem não dalhe, dalhe licença”.
PS.4: As fotos me lembraram que eu tava lendo “On the Road” lá em Alter. O filme me levou ao livro, que me levou ao movimento. Período legal que me lembra uma cidade que tá sempre no meu coração, San Francisco.
PS.5: No artigo de sorte, eu descobri que houve um estudo que concluiu que pessoas com nomes mais fáceis de pronunciar são julgadas mais positivamente que as com nomes difíceis. Isso me deixou “bolado”.













