As mudanças de trabalho pós pandemia — A volta ao presencial

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A pandemia e a era do juro 0% no Capital de Risco(VC) impactaram diretamente nos modelos de trabalhos de times de tecnologia. Enquanto o primeiro forçou as empresas a adotarem um modelo remoto, o outro acirrou a disputa por talento e tornou muito mais difícil (e caro) montar times em grandes centros.

Essa mudança repentina pegou muitas empresas de surpresa, impactando diretamente na qualidade das contratações, produtividade e cultura corporativa. Um dos maiores exemplos foi a queda de confiança dos dois lados. Por um lado o crescimento do micromanagement e práticas não saudáveis de gestão, por outro, alguns profissionais trabalhando em mais de um lugar sem alinhamento, ou falhando em ser transparentes em sua real dedicação.

Com a diminuição dos impactos da pandemia e o fim da era do juro 0%, a tendência da volta ao presencial foi clara. Só que, diferente do esperado, esse retorno ao “novo normal” não está sendo tão simples assim. Dentre os motivos, podemos afirmar que a flexibilidade do trabalho remoto trouxe uma qualidade de vida real para muitos colaboradores. Também, muitas empresas, pela pressão do crescimento acelerado, atualmente tem um time distribuído geograficamente, o que torna uma missão complexa voltar ao estágio original.

Esse artigo aborda os modelos de trabalho disponíveis e algumas variações que estão sendo utilizadas pelas empresas. A ideia é compartilhar algumas soluções, levantar alguns riscos e questionar algumas teses relacionadas aos modelos de trabalho e gestão. Será que estamos evoluindo conscientemente ou criando uma colcha de retalhos que só vai deixar mais complexo o cenário?

A adoção do modelo remoto

Uma série de fatores levaram a adoção acelerada do trabalho remoto. Dois, especialmente, foram primordiais: a disputa por talento; e a pandemia.

Desde 2018, o volume de capital aportado nas startups cresceu muito. Como há uma concentração de startups em determinadas cidades, por exemplo, São Paulo, Berlin e Londres. O que era difícil, se tornou mais ainda. Adicionando o contexto que muitas startups buscavam o crescimento de seu faturamento a todo custo, isso significou em uma pressão sem precedentes de contratação em muitos mercados.

Número de Empregados do Spotify

Embora algumas empresas expandiram sua operação técnica em diferentes centros, a complexidade e o custo de se fazer isso tornou o modelo remoto mais viável. Mesmo com muitos países flexibilizando o criando vistos facilitados para importação de talento.

Quando a pandemia chegou, lá no começo de 2020 (Brasil), essa necessidade virou obrigação. Enquanto a maioria das empresas tiraram completamente restrições de onde a pessoa poderia morar (com exceção do país), outras continuaram a contratar com uma ou outra restrição(exemplo, se mudar para a cidade do escritório quando a pandemia acabasse).

A mudança de cenário pós pandemia

Com a diminuição dos impactos da pandemia, algumas empresas anunciaram planos de uma volta gradual ao presencial. Essa tendência era mais clara em empresas com uma cultura presencial já estabelecida, ou empresas maiores. Só que, mesmo para estas, o tempo de trabalho remoto já havia criado uma série de expectativas e mudado a cultura corporativa, resultado em desafios para esse retorno.

De forma complementar, algumas outras empresas, principalmente as menores, começaram a questionar se alguns problemas de transparência/confiança e produtividade/previsibilidade não eram impactos do trabalho remoto. Muitas dessas não tiveram tempo pra planejar a mudança e sofreram impactos nos seus métodos de gestão.

A realidade é que a partir do momento que o trabalho remoto não era mais obrigatório, todas as empresas começaram a refletir sobre qual o melhor modelo de trabalho considerando a nova realidade.

Para que possamos refletir e entender os impactos da escolha do modelo de trabalho, primeiramente vamos tentar esclarecer o que cada um dos tipos de modelo significam, quais suas variações e políticas complementares.

Os tipos clássicos de modelo de trabalho

  • Presencial — Necessidade de estar mais de 3 vezes por semana no escritório.
  • Semi-presencial — Até 3 vezes por semana no escritório. Provavelmente dificultando o funcionário morar em outra cidade ou longe do trabalho.
  • Remoto — Sem necessidade de comparecer recorrentemente no escritório, eventualmente com reuniões presenciais planejadas numa cadência maior ou igual a 2 meses. Provavelmente possibilitando o trabalho de qualquer lugar (cidade) com fuso horário semelhante (menor que 3 horas de diferença).
  • Assíncrono — Igual ao remoto, mas com a possibilidade de trabalhar a partir de qualquer fuso horário.

Além desses acima, muitas empresas usam o termo híbrido para referenciar modelos presenciais ou semi-presenciais. Não acredito na assertividade deste termo pois não há consenso do que ele significa. Seria mais justo comunicar como um presencial com flexibilidade.

Outras variações de modelo de trabalho

  • Semi-presencial para líderes ou cargos mais seniors — Nesse caso, a maioria da empresa (ou time de desenvolvimento) continua no modelo remoto, enquanto os líderes (engineering leads ou cargos mais seniors) comparecem ao escritório na forma semi-presencial.
  • Remoto com encontros recorrentes — Como o próprio nome diz, a empresa roda no modelo remoto mas faz semanas de trabalho recorrentemente (intervalos de 2 à 4 meses). Algumas empresas contratam todas as pessoas no modelo remoto enquanto outras contratam no modelo presencial, a diferença aqui é que vai custear as viagens e hospedagens durante os encontros.
  • Remoto com kick-offs, offsites e reuniões importantes de times presenciais — Seguem o modelo remoto porém os times normalmente se encontram para reuniões importantes presencialmente. Esses encontros não são necessariamente no escritório da empresa, já que em alguns casos a mesma não possui um que comporte os times. A recorrência dos encontros não é fixa e pode variar de time pra time.

Vale ressaltar que algumas empresas tem adotado o 4-day work-week. Nesse caso, o time se divide para que tenha um percentual relevante de pessoas do time em todos os dias úteis da semana. Este modelo pode ser combinado com qualquer variação acima.

Outras políticas

Como complemento aos modelos, as empresas podem definir políticas que impactam diretamente nesse aspecto. Abaixo listo algumas que já vi sendo aplicadas por empresas em São Paulo:

  • A empresa paga um auxílio (1.5k/2k) para que o funcionário more próximo ao escritório (exemplo: bairros vizinhos em SP).
  • O líder define quem e quantos membros do time podem ir para o modelo remoto.
  • O líder do time pode flexibilizar o trabalho remoto de alguns dias de forma excepcional. Essa aprovação é feita via um sistema interno e tem limites periódicos.
  • Os funcionários tem o direito de trabalhar remotamente por um período fixo, por exemplo, um mês durante um ano.

Importante entender que sendo uma política, elas são regras aplicáveis à todos os funcionários(ou pelo menos times/chapters inteiros), não são exceções pontuais.


Impactos, questionamentos e possíveis rumos dos modelos de trabalho

Os impactos que o trabalho remoto

Definitivamente o trabalho remoto mudou uma série de aspectos no dia-a-dia de uma equipe. Abaixo, listo alguns prós e contras de modelo.

Prós

  1. As empresas estão mais flexíveis e prontas para que o empregado trabalhe de qualquer lugar.
  2. As empresas estão mais assíncronas e aumentaram a comunicação escrita.
  3. A busca de talento se expandiu, facilitando a contratação de melhores profissionais independentemente do local.
  4. A oferta de emprega com salários competitivos aumentou permitindo um modelo mais sustentável se comparado com profissionais em grandes centros.
  5. A qualidade de vida e flebilidade aumentou, permitindo que os profissionais possam conciliar outros compromissos pessoais com sua vida profissional.
  6. Aumenta a probabilidade de um fit entre um profissional e uma empresa. Uma maior possibilidade de escolher a indústria que se quer trabalhar e empresas que tenham políticas mais centradas no profissional.

Cons

  1. Aumento na dificuldade de se estabelecer uma cultura de time engajado.
  2. Aumento na dificuldade de leitura da saúde mental dos colaboradores.
  3. Aumento dos problemas de onboarding e aprendizado corporativo.
  4. As reuniões remotas tem gerado um sensação maior de cansaço do que as presenciais.
  5. A confiança no trabalho se tornou um tópico devido aos casos de trabalho em multiplas empresas sem alinhamento.

É importante ressaltar que muitas empresas não eram remotas ou não estavam preparadas pra uma mudança brusca. Para essas empresas e profissionais, o impacto tenha sido até maior do que o listado.

Além disso, algumas empresas tomaram algumas decisões até mais bruscas, como centralizar as operações em uma localidade. Isso tem forçado empregados a uma mudança grande não planejada ou a uma diminução no seu salário.

Tendências e o futuro

A nova realidade vai permitir modelos de trabalho mais complexos do que tínhamos antes da pandemia. Isso vai permitir que as empresas e os profissionais tenham uma escolha mais apropriada de acordo com suas metas e cultura. Porém, nem todas as empresas estão sendo conscientes ou se prepararam para essa mudança, gerando uma série de dúvidas, tanto do lado da empresa, quanto dos profissionais.

Abaixo, deixo alguns questionamentos para que pensemos se estamos caminhando pra uma solução melhor ou mais comoda. E se as empresas e os gestores têm a conciencia dos impactos que essas mudanças irão ter.

  • Iremos voltar ao modelo de concentração de profissionais em grandes centros? E qual o impacto se isso acontecer?
  • Quais tipos de empresa podem abrir mão de talentos para implantar um modelo mais presencial? E no caso de muitas empresas voltarem ao presencial, não teremos uma concentração de talento baseado em poder aquisitivo (big techs)?
  • Empresas grandes que cresceram muito na pandemia vão conseguir voltar ao modelo presencial? E nesse caso, os profissionais contratados remotamente vão se manter na empresa?
  • Será que os profissionais e as empresas realmente entenderam que no modelo remoto/assíncrono cresce a necessidade de uma gestão baseada nos resultados e não nas entregas?
  • O que os profissionais tem feito ou evoluído para que a confiança e a transparência aumente e os questionamentos de problemas no remoto diminuam?
  • O modelo de trabalho vai se tornar um diferencial competitivo ou simplemente uma escolha que depende do poder da empresa?
  • Quais os mecanismos e políticas que tem se buscado para melhorar a presibilidade, o onboarding, a integração e a diminuição de conflitos no modelo remoto?

Enfim, essas são algumas das dúvidas que eu gostaria de discutir e entender o que outros gestores e empresas tem explorado. De forma geral, acho que a maioria das empresas está caminhando pra um modelo melhor, mais democrático e que aproveita mais o potencial que um país igual o Brasil tem.


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Referências

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