
Acabo de voltar de umas férias (e que férias!). Foi daquelas viagens que você sai bem diferente do que entrou. Além de conhecer várias novas histórias, tive a oportunidade de reencontrar meus amigos de diferentes cidades, incluindo ex-colegas de trabalho da GetYourGuide(GYG) em Berlin. Esse reencontro me fez pensar em tirar do papel o que eu já havia começado a escrever, os posts sobre o que eu aprendi em cada lugar que eu passei nos últimos anos. E aproveitando o embalo, eu vou começar pela GYG.
Contexto

Em 2019, eu fui para a Berlin para trabalhar num time de marketing orgânico/CRM da GYG. Sou extremamente grato pela GYG me proporcionar essa experiência que mudou muito minha vida.
A GYG é, de forma geral, um marketplace de atividades turísticas. Sua atuação vai desde ingressos para atrações famosas até free walking tours. A startup tinha uma forte presença na Europa e na América do Norte quando eu trabalhava lá (2019). Pelo que tenho visto atualmente, essa presença é forte no mundo inteiro.
Uma nova cidade e cultura, uma startup em alta velocidade (acabara de levantar uma grande rodada — unicórnio), um mercado sazonal e hiper aquecido, e um time multicultural me impactaram profundamente. Muitos desses aprendizados vieram anos após a minha saída da empresa, e aqui nesse post vou compartilhar os que mais me marcaram.
Aprendizados

Sobre Cultura
Uma empresa realmente multicultural
Atualmente, a GYG tem mais de 75 nacionalidades trabalhando na mesma empresa. Isso traz uma série de claras vantagens competitivas para uma empresa que atua em muitos mercados diferentes, e que tem clientes de mais de 150 nacionalidades. Uma delas é que você pode se comunicar de uma maneira muito mais efetiva. Quem nunca entrou num site com aquele “português” um pouco estranho? Pois é, isso tem um impacto direto na sua visão sobre a empresa ou sobre o serviço. A Tripda tem uma ótima história sobre esse tema 🙂
Um outro aspecto bem importante, numa empresa com essa característica, é que você passa a ser muito mais consciente em relação a sua própria comunicação. Por exemplo, era improvável que eu falasse com menos do que 5 pessoas de diferentes nacionalidades diariamente. Lembrando que nós estávamos em um modelo presencial.
Normalmente, eu precisava entender, alinhar e demandar várias coisas diariamente. Também, eu mantive o hábito de escrever muitos documentos para que o alinhamento estivesse mais claro para todos. O que eu aprendi foi que:
- Eu teria que me acostumar com vários tipos de tom de voz e níveis do quanto as pessoas são diretas;
- Que perguntas soam bem de forma bem diferentes para várias nacionalidades;
- Que, muitas vezes, era necessário explicar como você funcionava e se comunicava (da forma);
Dois casos foram bem emblemáticos para mim. O primeiro foi quando meu manager me apresentou um documento do estilo “Como trabalhar comigo — Como eu funciono”. Foi a primeira vez que eu tinha visto um documento daquele e, de fato, eu demorei um tempo pra entender a necessidade do mesmo. Realmente é super interessante quando estamos com múltiplas culturas colaborando intensamente. Me ajudou bastante no onboarding.
O segundo caso foi quando eu descobri que escrever (no meu “inglês” rudimentar) “is he the responsible one for this?” era agressivo. A vantagem foi que eu descobri um problema de relacionamento maior do que o que essa frase causou. Naturalmente, eu pedi mil desculpas e usei a vantagem de levantar e ir até a cadeira da pessoa pessoalmente para fazer isso.

Colaboração do tipo — Se coloque no meu lugar
Um dos motivos de ir para a GYG, foi poder trabalhar novamente com meu amigo, mentor e freguês no poker, Leandro Lages. Além dele, eu acabei conhecendo vários outros amigos com ótimo background e track record (Nubank, Viva Real, Globo, Rocket Internet, etc.).
Naturalmente, nós costumávamos trocar sobre os problemas e desafios que éramos donos nos diferentes contextos que estávamos alocados. Não é incomum ver isso em algumas empresas, mas particularmente, foi a primeira vez onde eu realmente aprendi sobre muitos desafios, muitas pessoas de alto-nível, em um espaço de tempo tão curto. Uma das razões é que várias dessas pessoas entraram no meio período de tempo.
Desde então, venho propositalmente tentando aprender dessa forma nas outras empresas que fiz parte (Nubank, Amazon). O resultado é que sinto que aprendi muito mais rápido nesses outros lugares por conta de presenciar práticas de outros times como: cerimônias; whiteboards; ler documentações; e até mesmo servir de Pato de Borracha pra problemas gerenciais ou estratégicos.
Estabilidade x Dinamismo — A relação com o modelo de trabalho
Desde cedo, quando eu entendi o que era um sindicato lá com meus amigos do SERPRO, eu me importo com modelos de trabalho. Isso não se deve somente pelo que gosto de montar times de tecnologia e fazê-los produzir bem e com saúde (mental), mas também porque eu acho que é um dos principais aspectos em uma sociedade evoluída.
Há grandes diferenças do modelo de contratação e stock options entre Brasil e Alemanha. Como tive que fazer determinadas escolhas logo quando cheguei em Berlin, como escolher entre um seguro de saúde público e privado, ou mesmo entender o estágio probatório (algo que eu esquecera no BR), foi natural começar a ver as diferenças e os impactos do modelo “CLT” Alemão e Brasileiro.
De forma bem simplista, acredito que o modelo de contratação padrão alemão prioriza a estabilidade ao invés do dinamismo. Em um momento super aquecido, como era em 2019, acredito que o modelo brasileiro seja uma escolha mais apropriada. Combina bem incentivos e estabilidade, com relativa flexibilidade para ambos os lados.
Ainda sim, acredito que podemos melhorar o modelo brasileiro mas é muito complexo, pois como política pública, o impacto é muito amplo. Também, acredito que como sociedade, temos que pensar em quais indústrias queremos incentivar. Naturalmente tech me parece uma dessas indústrias. O outro aspecto, é que com esse contraste, você acaba percebendo que seu modelo até que é relativamente bom.
O jeitinho brasileiro e a flexibilidade
Brasileiro é famoso pela síndrome do vira lata, embora a gente já tenha melhorado muiiiito. Pelo menos no meu meio, se alguém vem falando que a Coca Cola Zero de fora é melhor que a daqui, não vai aguentar nossas provocações. Mas, em geral, muita gente ainda não consegue perceber que em várias coisas estamos em um nível relativo bem bom, como por exemplo, companhias aéreas e aeroportos.
Este período fora do Brasil me fez ficar reflexivo de muitas coisas, porque diferente dos outros que passei fora, a minha intenção era ficar em Berlin por muito tempo. Mas como eu fiquei baixo astral por um bom tempo, eu acabei fazendo muitas comparações (não recomendo — use o mantra quem converte, não se diverte) e muitas coisas doíam em mim, mesmo sem necessidade.
Como surpresa, Café em Berlin é ótimo! Ótimas torrefações, cafés do mundo todo, e muito filtrado espalhado pela cidade inteira — nada da ditadura do espresso ou do curto por aqui! Por outro lado, alguns contrastes facilitaram o reconhecimento de pontos fortes do Brasil ou dos Brasileños, um deles é a flexibilidade.
A gente consegue se adaptar mais a situações que saem do controle ou que temos pouco controle, somos flexíveis e usamos o “jeitinho brasileiro”. Assim, muitas coisas se resolvem com pouco conflito, de uma forma mais suave. Deixando claro que a comparação não é especificamente com os Alemães, mas com outras nacionalidades em geral. Acho que esse nosso jeitinho é muito importante quando estamos falando de construção de software, porque na verdade quanto mais fica fácil desenvolver (no-code, IA, padrões, AWS, etc.), mais o problema passa a ser alinhamento e perspectiva. É aqui nesses pontos que nós brilhamos (eu nem tanto, mas meus conterrâneos sim).
Lembro de uma vez que um projeto não andava, e eu propus que um engenheiro não-brasileiro fosse falar pessoalmente com outro engenheiro para resolver mais rápido. Ele ficou um pouco travado, e eu tive que fazer uma demonstração da política diplomática brasileira. Eu desci alguns andares, fiz uma piada com o jeito de dançar do meu amigo engenheiro, depois de umas risadas pedi que ele abrisse o código-fonte pra gente pensar numa gambiarra (outra característica positiva do BR) juntos. E, como no Brasil, tudo se resolveu.
Ainda em 2019, eu ouvi o podcast sobre o Guilhotina, que foi o 15 melhor bar de drinks do mundo naquele ano, o melhor resultado brasileiro até então. Nele, um dos fundadores fala de uma forma muito especial e positiva sobre o jeitinho brasileiro. Vale a pena ouvir.
Um verdadeiro processo seletivo estruturado
A dificuldade de contratar engenheiros foi aumentando muito com o tempo. Em 2012, na Dafiti, era muito mais fácil contratar engenheiros bons, e agradeço meu amigo Dairton ter montado aquele timão que me ajudou muito.
Já em 2017, no QEdu, foi uma dificuldade bem maior. Estávamos no começo do boom do VC. Mas, definitivamente, quando eu cheguei em Berlin, eu vi que ali o desafio era maior ainda. Entendi, por exemplo, a necessidade de buscar talento em outros países. E, também, entendi o poder de um processo seletivo estruturado.
No Brasil, acho que pela abundância de engenheiros e a pouca variação cultural (não buscamos muitas pessoas de fora), os processos não tinham uma “necessidade” de serem bem estruturados. Com raríssimas exceções, os processos são completamente desestruturados e funcionam na base do “gostei desta pessoa”. Um exemplo disso é quando a pergunta “Por que você trabalharia na empresa X?” é feita.
O QEdu foi uma aula de psicometria e desenho de prova, a GetYourGuide me mostrou como um processo estruturado pode acelerar, deixar mais barato, melhorar a qualidade, e diminuir o risco e os vieses do processo. A configuração do Greenhouse da GYG é um sonho até hoje pra mim.
Software orientado a experimentação
Um time com cientistas, uma belo lake de dados, e boas ferramentas me fizeram experimentar um ambiente de construção de produtos que usava realmente os dados. Sem dúvidas, a GYG foi a empresa que mais tive a oportunidade de aprender estatística no dia-a-dia, principalmente por estar em um time mais de front.
Por exemplo, a maioria dos deploys usavam feature flags, abordagens de testes (como o A/B), além do trabalho prévio de construção de hipóteses e levantamento de dados (te amo Databricks). Definitivamente, sou outra pessoa depois de ter participado dessas entregas, não foi só o meu lado profissional que foi afetado.

MBA em UX e Design
Uma das minhas primeiras reuniões presenciais na GYG, foi com o nosso Diretor de Produto e meu par de Design, meu amigo Eli. A primeira coisa que eu lembro é que meu inglês não estava muito acostumado com outros sotaques, a segunda foram as propostas de mudanças do fluxo de aquisição de usuários. Ali morava a primeira missão do time que eu fazia parte.
Foi um mês de um verdadeiro MBA (gosto dessa analogia) na qual eu aprendi uma infinidade de coisas relacionadas à Design. Da efetividade de um bom benchmark, passando pela construção de componentes simples e modificações numa home page crítica, até como utilizar dados para justificar as mudanças em UX e Design.
Como resultado, ficamos depois desse mês de trabalho com um backlog extenso e que, costumeiramente, gerava resultados incríveis. Até hoje lembro do banner simples de opt-in na newsletter que gerou 20% de melhoria no teste A/B.
Bonus Track

Outras coisas que eu aprendi e são bem importantes pra mim hoje:
- Escrever sempre no 1v1, durante a reunião (e se preparar também);
- Escrever o scorecard da entrevista, durante a entrevista;
- Como fazer uma newsletter linda e informativa (assinem ela e vejam);
- E uns drinks estilosos (isso aqui ainda não consegui uma utilidade profissional muito boa).
Um ano de muito aprendizado pessoal e profissional na Alemanha. Saudades de muitas coisas. Já teve algo assim ou pensa em ir pra lá? Só me mandar um e-mail que conversamos sobre (me at marcelioleal.com) ou só mandar um alô no Twitter — @marcelioleal
PS.: Hey, if you are from GetYourGuide or you fell that I need to remove something from this post, just let me know (me at marcelioleal.com). Sorry for that.
PS2.: Um muito obrigado ao meu amigo Marcelo Malcher por me lembrar que eu escrevia aqui no Medium, e assim, me fazer mover um dos muitos textos que estão parados no Evernote.