Os três livros mais pesados que eu já li

Eu gosto de ler bons livros aos poucos, quando possível vagarosamente. Normalmente eu paro pra pensar sobre as implicações das coisas que eu estou lendo. Sei que parece estranho, mas funciona bem pra mim. Consigo, desta forma, assimilar muito o conteúdo e fazer conexões com outras coisas.

De todos os livros três mexeram muito comigo, reviveram sentimentos, criaram novos, me fizeram sentir o que os personagem passaram, e, principalmente, me ajudaram a organizar o pensamento me explicando/falando minha história, região, profissão, etc.

Há uma característica comum entre os três livros, os títulos são sensacionais!

As Veias Abertas da América Latina

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O livro de Eduardo Galeano é um clássico, é muito difícil reunir tanta informação sobre a América Latina de uma vez. Este livro explica muitos pontos sobre como evoluímos até chegar onde estamos, origem de vários hábitos que temos até hoje, origem de algumas de nossas mazelas. Mas também não é um livro fácil de ler, temos que entender algumas tentativas de casualidade, o contexto e a época que ele foi escrito, isso influência muito na sua interpretação (é óbvio, mas é bom ressaltar pra não ter nenhuma reação política/ideológica desproporcional aqui).

Muitas pontos mexeram comigo, desde como eu era um total ignorante sobre vários países da América Latina(AL), como a Bolívia e o Peru, até ver coisas que continuam a acontecer nos dias atuais — situação indígena no Brasil por exemplo . Há tantas coisas interessantes como, por exemplo, a passagem pelos ciclos econômicos, a relação desses ciclos com o modelo econômico mundial, e a repetição de problemas em diferentes países da AL.

Foram vários trechos que eu lia e tinha que parar. Trechos pesados, às vezes tristes. Entender o contexto histórico e não trazer mágoas é difícil (mas sei que necessário). Parece que você deixa de ser ingênuo, que você começa a entender várias decisões erradas que são tomadas até hoje e os impactos de implementações erradas podem gerar.

Eu me pergunto se…

Depois de tudo isso, qual é o nosso modelo de sustentabilidade ? de crescimento ? econômico ? Aprendemos algo ?

E sempre lembro de frases como essa…

Na América Latina é normal: sempre se entregam os recursos em nome da falta de recursos.

PS.: Sempre deixava esse livro na lista pra ser lido, até que uma conversa em San Francisco sobre o Memorial da América Latina em São Paulo me fez abrir os olhos pra colocar a urgência necessária nessa leitura. Agradeço ao meu primo James!

The Hard Thing About The Hard Things

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Esse livro tem um dos títulos mais legais de livros que eu já vi! A versão em português merecia um título melhor do que a tradução pura. Podiam se inspirar em "No Country for Old Men" ou "Onde os Fracos não Têm Vez". Dois títulos sensacionais.

Mas falando do livro do Ben Horowitz , eu posso dizer que ele me fez reviver várias situações estressantes que eu passei nesses 6 anos de mundo de startups. No papel de sócio ou empregado, eu me coloquei na pele das pessoas retratadas nesse livro. E neste caso eu tive que parar porque o livro me estressava mais ainda!

Pra mim existem dois tipos de pessoa, as que sempre arranjam culpados pra seus erros e que dificilmente melhoram; e as que consideram erros normais e buscam formas de não errar de novo. Nesse contexto, ser consciente das regras do meio em que você vive é uma das principais formas pra diminuir o impacto de casualidades, assim controlar mais o seu caminho. Esse livro apresenta uma jornada real transformada em um manual problema-solução pra situações difíceis. Te apresenta e faz com que você entenda o contexto de startups. Te ensina com uma história.

Um dos casos que mais me ficaram na minha mente foi o das demissões em massa, pois eu passei por situações assim e vivenciei diferentes abordagens. Mas, sinceramente, nunca tinha pensado no impacto na cultura da empresa e nem na forma menos impactante de se fazer isso. É uma situação dificílima, pode acabar com a cultura da empresa e impactar muito todos que continuam nela. De forma imediata eu vi o quanto a situação que vivi na Predicta foi executada da melhor forma possível e quanto foi mal executada na Oppa. Se você roda uma empresa centrada em pessoas, você deve saber como minimizar o estrago de momentos super difíceis como esse.

Ben escreve de forma transparente e clara, relatando vários fatos vividos por ele. Desta forma, o leitor pode ver que nem sempre ele tomou as melhores decisões e também ver o quanto ele aprendeu por todo o seu trajeto. Tão transparente quanto é o livro, parecia ser a gestão dele. Confiança, que é um dos alvos da transparência, é citada como aspecto essencial pra uma startup.

A habilidade do CEO em construir confiança constantemente é muitas vezes a diferença entre companhias que executam bem e as companhias que são caóticas.

Mas é uma frase do primeiro capítulo que pra mim é uma das mais impactantes do livro.

Essa foi a primeira vez que eu comecei a entender a importância dos fundadores rodarem suas próprias empresas.

Pssica

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O Pará é o caos. Pro bem e pro mal. É impressionante como se deu a evolução desse estado, eu não sei se estamos ficando mais caóticos ou se sempre foi assim. Os ciclos econômicos(ou de caos) baseados em booms de recursos naturais trazem muita gente de fora, concentram muitas pessoas em cidades, na maioria das vezes, sem estrutura. E isso só aumenta com o fim do ciclo. Belém, por exemplo, era chamada de Nova Delhi pelo grande blogueiro Juvêncio Arruda . Essa complexidade amazônica é pouco entendida por quem nunca viveu lá, mas os livros do Edyr mostram muito esse lado não tão conhecido.

O meu caso de amor com o Pssica começa no título, eu usei muito essa palavra quando adolescente durante os jogos, significa que você está jogando má sorte ao seu adversário. Má sorte pode ser uma explicação do inferno que é a vida de alguns personagens. Só não sei se isso é má sorte mesmo ou um destino razoavelmente provável de muita gente da região.

O livro é intenso, rápido, direto, e, na minha opinião, chega a ser impressionante você não se perder na narração. É sensacional o ritmo do livro, que combina com a história pesada. Isso gera uma vontade de ler o livro de uma vez, e é o que aconteceu comigo e com muita gente.

Precisamos conversar. D’accord, pode dizer, sem segredos. A garota branquinha. Jane? Que é que tem ? Eu queria comprar. Mon Dieu, comprar ? Como assim ? É isso, eu queria comprar pra mim. Non ser possible. Ela é minha, não quero vender. Philippe, tu disseste, é uma mercadoria. Me vende.

O livro mostra parte da Ilha do Marajó, passa por rios, fala de ribeirinhos e políticos. Mistura locais e estrangeiros, casos de amor e amor como negócio. Crueldade e ingenuidade. É sensacional.

A história mexeu muito comigo, principalmente por ver que relações espúrias, vidas perdidas e histórias tão tristes como essas que estão no livro continuam a acontecer pela Amazônia. Enquanto isso, as pessoas vêem essa região de outra forma, sem as pessoas que vivem lá. Como disse André Forastieri : “Pssica” dói da primeira à última página.Vamos nos manter conectados no Good Reads ? Me adiciona lá . Assim podemos uns inspirar os outros na leitura.

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